Por Fernanda Bogoni
Você acorda em um dia chuvoso e frio, quase fora do horário, e percebe que perdeu seu ônibus. Ou lembra que seu carro está na revisão. Ou, ainda, que decidiu viver sem carro há dois anos e agora só anda de bicicleta. Mas tudo bem. Você acordou com saúde e tem um emprego. A manhã passa correndo, e você ouve seu estômago roncar. A marmita acabou molhando, mas dá pra secar e comer rapidinho. Dia de estrogonofe, delícia. Pra que reclamar? Barriga cheia, agora é curtir aqueles minutos de breve descanso e brain rot, depois voltar pra labuta. Maravilha, afinal, já é quinta-feira e logo tem dia de folga. Chuva de clientes, é bom atender todos bem certinho, hein?! E entregar os dois relatórios que eram pra semana passada. Mas vai dar tempo, porque, também, sair na hora do trânsito caótico, pra quê? Melhor esperar um pouco, deixar tudo em dia, pegar bem menos fluxo e chegar logo em casa praquele banho quentinho. E já são 22 horas. E ainda falta arrumar a mochila das crianças, preparar os lanches e tirar a marmita do congelador. Como só dá pra ir ao supermercado uma vez na semana, faltou o suco. E dois ovos na receita aquele dia. Mas isso é tranquilo, a cozinha é que ficou pequena demais, na verdade. E as crianças, grandes demais. Bom, melhor não pensar nisso agora e ir dormir. Olha que coisa boa: amanhã o tempo promete melhorar, vai melhorar. E o dia começa de novo e de novo e de novo. E chegam as contas de mais um mês, e a lista do supermercado só fica maior e a dos streamings e a do carro, não, da bicicleta, e a das escolas, da academia, das marmitas fitness. Porque chega tudo a todo o tempo, menos o dia de folga. Mas amanhã é feriado, e embora seja preciso trabalhar, vai ter manifestação nas ruas e, mesmo que você não consiga ir, pode ser que essa escala 6x1 acabe de uma vez por todas. … Todos, todos os dias do ano tem alguém trabalhando em algum lugar de Curitiba e em algum lugar do Brasil. Seja na Páscoa, no Dia das Mães, no Natal ou nos feriados. A maioria dessas pessoas, entre os menos privilegiados, com menos geladeiras, menos ovos na geladeira, menos marmitas fitness, automóveis do ano e casas próprias. Se esse é o seu caso, queremos lembrar que também estamos aqui por essa causa. Não aqui hoje, trabalhando, porque fizemos questão de parar, mas sempre, em nossa forma de ver a vida, o trabalho e a cidade.