Por Fernanda Bogoni
Mesmo com mais de 1.400 casos de feminicídio por ano e quase 200 casos de estupro por dia no país? Mesmo com tantas mulheres negras, indígenas, quilombolas e trans ainda tão longe da universidade e perto da violência? Mesmo com tantas mulheres trabalhando informalmente, sem proteção trabalhista ou renda estável? E tantas outras ganhando salários muito menores do que os homens em cargos semelhantes ou iguais? Mesmo que, ainda hoje, mulheres principalmente pretas e pardas ainda sejam resgatadas em situações análogas à escravidão? Mesmo com 44% das mães solo brasileiras sobrevivendo com até aproximadamente um salário mínimo por mês e tanta gente ainda achando que o bolsa-família é privilégio? Mesmo que em Curitiba mais de 40 mil nascimentos por ano não tenham registro de paternidade? Mesmo que as mulheres ainda sejam sub-representadas em pesquisas médicas e as políticas femininas de cuidados para pessoas de 60 anos ou mais ainda sejam ínfimas? Mesmo que, em pleno 2026, as mulheres ainda sejam apagadas da literatura, da arte, da música, da filosofia, da tecnologia, da ciência e de muitos outros espaços, sombreadas por homens? Mesmo que nossas ruas, bairros, praças e escolas ainda levem em sua maioria nomes masculinos, alguns, inclusive, de escravocratas? Mesmo que todos os dias você saia de casa e veja centenas ou milhares de mulheres andando pela cidade com medo, exaustas e tendo que enfrentar uma tripla jornada? Mesmo com a falta de políticas públicas, consciência social e uma mudança cultural que pare de demonizar o papel da mulher na sociedade? Mesmo com tudo isso, vamos comemorar? A igualdade entre mulheres e homens é um valor e um objetivo necessário à consolidação da democracia e ao desenvolvimento econômico e social sustentável do Brasil. Enquanto os índices nesse sentido não melhorarem, vamos continuar sem aplaudir.
Hoje é mais um dia de luta.

Greve de trabalhadoras na Argentina — Foto: Brasil de Fato/Reprodução