Por Fernanda Bogoni
Em um cenário perfeito, toda boa festa tem salas lotadas de presentes e primos, espaços gourmets repletos de tradicionais e apetitosas receitas, mesas fartas em enormes varandas, amplos quintais onde brilham suntuosos pinheirinhos, piscam luzinhas e correm crianças bem-vestidas e felizes. Em um mundo ideal, todo fim de ano tem magia, bondade e ninguém triste.
Mas, muito além das comédias românticas natalinas e dos luminosos e privilegiados bairros das cidades, há histórias nem tão felizes assim.
No clássico conto dinamarquês de Hans Christian Andersen, “A Pequena Vendedora de Fósforos", uma garotinha sucumbe ao frio e à fome ao vagar pelas ruas em plenas festas de fim de ano. Machado de Assis, Lima Barreto, Raul Pompéia e até mesmo Vinicius de Moraes, entre diversos outros autores em histórias que abordam essa época do ano, também já trataram dos sentimentos diversos (e controversos) atiçados pelo Natal.
Com certeza, em algum momento, você também já parou pra pensar nisso: o que significa, de verdade, o Natal? Caso não tenha pensado, aqui vai uma sugestão de leitura que, mais do que uma mensagem, pode ser uma boa reflexão: o conto “Uma Memória de Natal” (A Christmas Memory), de Truman Capote, do qual segue um pequeno trecho abaixo.
"É sempre a mesma história: chega uma certa manhã de novembro, e minha amiga, como se inaugurasse oficialmente a temporada de Natal que lhe anima a fantasia e aquece o coração, anuncia: ‘É tempo de bolo de frutas! Vá buscar a carreta! Veja se encontra o meu chapéu’. (...) O chapéu é encontrado, um chapéu redondo de palha, enfeitado com rosas de veludo desbotadas; já pertenceu a uma parenta mais elegante."
A história é contada por um menino de 7 anos e fala, sobretudo, das relações familiares com primos nesta época do ano, em uma família muito pobre. O personagem e sua “amiga” esperam ansiosamente o Natal para o qual economizam migalhas durante todo o ano.
Há um ritual: coletar nozes e comprar os ingredientes para fazer bolos de frutas que depois são enviados a pessoas que eles, inclusive, nunca viram. Pessoas como o presidente do país, que tal? Mas o principal, além da prosa de Capote, é que existe ali uma mensagem sobre a efemeridade dos momentos, sobre inocência, amizade e doação, mesmo em meio à pobreza. O conto foi publicado em 1956 e é autobiográfico ao retratar a infância pobre do escritor estadunidense no Alabama, durante a grande depressão dos EUA na década de 1930.
"Começa nesse dia o trabalho de que mais gosto: as compras. Cerejas e cidras, gengibre, baunilha e abacaxi em lata, frutas caramelizadas, uvas-passas e nozes e uísque e, ah, tanta farinha e manteiga, tantos ovos, especiarias, essências; desse jeito, vamos precisar de um pônei para puxar a carreta. Mas, antes que as compras possam ser feitas, há a questão do dinheiro. Nós dois não temos nenhum."
Podemos pensar nesse conto como mais uma história de Natal, podemos apenas fruir de sua impecável literatura ou podemos, ainda, pensar naquilo que nos atravessa durante todos os outros 364 dias do ano. Não se trata de não aproveitar nossos privilégios, apenas de olhar em volta e perceber o mundo onde vivemos.
Mas… amanhã há de ser outro dia, por isso, desejamos a você uma excelente celebração natalina e um novo ano ainda mais consciente, engajado e feliz.