Por Fernanda Bogoni
Talvez você nunca tenha usado um orelhão. Ou talvez seja do tempo em que se faziam filas em frente aos telefones públicos, que no auge chegaram a ultrapassar milhões de unidades em todo o território nacional. Criado em 1971 pela arquiteta sino-brasileira Chu Ming Silveira e pela Companhia Telefônica Brasileira, o orelhão completa 55 anos em 2026 e é um dos ícones do design urbano brasileiro, um verdadeiro símbolo nacional.

Chu Ming Silveira — Foto: Orelhao.arq/Reprodução
Embora uma operação de retirada das carcaças tenha começado em 2019, o orelhão ainda resiste e, de acordo com dados de 2024 da Agência Nacional de Telecomunicações, a Anatel, Curitiba ainda possui orelhões operantes e o Paraná é o segundo estado do Brasil com mais telefones públicos ativos.

Em seu auge, o orelhão ganhou apelidos como “Tulipa”, “Capacete de Astronauta”, “Vermelhinho”, "Tamurinha", "Ovo”, entre outros. — Foto: Reprodução/Wikimedia Commons
Outros países da América Latina, África e até mesmo a China, possuem aparelhos similares, todos inspirados no modelo brasileiro. O orelhão faz parte da história social e tecnológica do Brasil e, ainda hoje, é um pedaço nostálgico da nossa paisagem urbana. Em nossas andanças pelo centro, a gente volta e meia encontra um.
Forma acústica ideal, conforto e resistência
Antes do orelhão, os projetos da Companhia Telefônica Brasileira não deram tão certo: as então cabines circulares de vidro e acrílico, além de inadequadas, eram mais expostas ao vandalismo, mais abafadas e menos funcionais. Por isso, a ideia da arquiteta Chu Ming Silveira, ao criar o orelhão, foi unir funcionalidade, inovação, resistência e conforto. Inspirado no formato de um ovo - segundo ela, pela forma acústica ideal -, ele foi confeccionado em fibra de vidro, uma estrutura pensada para proteger tanto o aparelho quanto o usuário, que ainda apresentava um baixo custo e considerava as condições climáticas brasileiras. Ao ficar sob a cúpula, a proteção acústica podia chegar a 90 decibéis, minimizando interferências na comunicação.

Os orelhões continham aparelhos telefônicos vermelhos produzidos em Osaka, no Japão, daí as expressões "Vermelhinho" ou "Tamurinha". — Foto: Orelhao.arq/Reprodução
À época do lançamento oficial do orelhão, o Brasil tinha mais de 50 milhões de pessoas vivendo em áreas urbanas, o que equivalia à mais da metade da população. Logo, a invenção se espalhou: era possível vê-los em praças, esquinas, pontos de ônibus e outros locais de alta circulação, onde fichas de metal e, depois, cartões telefônicos eram usados e colecionáveis, marcando gerações e histórias. Na década de 1980, um comercial intitulado “A Morte do Orelhão", criado por uma famosa agência de publicidade brasileira, chegou a abordar o vandalismo, tamanhas as interações que o aparelho suscitava, especialmente em regiões centrais.

Foto: Santa Portal/Reprodução.
Apesar de toda a bagagem histórica, a tendência é que os orelhões desapareçam por completo. Como aconteceu com os primeiros celulares e computadores. Mesmo que isso aconteça, os orelhões seguem vivos na memória de quem já esperou na fila, colecionou cartões telefônicos ou fez uma ligação urgente sob aquela cúpula acústica em forma de ovo.
E você, já usou um orelhão? Tem alguma história dessas que mereça ser contada? Conta pra gente — porque a cidade é feita desses pequenos grandes marcos que atravessam gerações.